domingo, 10 de julho de 2011

terça-feira, 7 de junho de 2011

Vans Duct Tape - Festival de Longboard Salinas 2011

Tal como já tinha sido anunciado pelo próprio Joel Tudor na primeira edição deste evento, em Steamer Lane, Santa Cruz-Califórina, o próximo "anti-contest contest" realizar-se-ia, bem perto de nós, na praia de Salinas nas Asturias, Espanha.
E de facto esta "competição" vai ter lugar entre os dias 28 e 31 de Julho, durante o Festival de Longboard de Salinas de 2011, que vai actualmente na sua décima edição, sendo já uma referência entre os amantes do pranchão.

Este ano o festival conta com o, então, já conhecido formato Duct Tape Invitational, proposto por Tudor e pela Vans, em que:
-Só é permitido o uso de pranchas de longboard com mais de 5kg de peso
-Apenas se pode usar Single-Fins
-Está interdito o uso de leash
-E aplica-se um sistema de classificação que privilegia uma linha de surf clássica.

Este formato pretende devolver ao longboard a essência do surf clássico e revitalizar os padrões estéticos do qual este nunca se deveria ter afastado. E quem melhor que Alex Knost, Tyler Warren, Ryan Burch ou o próprio Tudor para levar a cabo a revolução "contra-cultural" do surf, aqui mesmo ao lado no país vizinho?

Nesta décima edição a organização propõe também uma reflexão, baseada na história do próprio festival, sobre o eterno dilema e inquietação constante que caracteriza a vida de qualquer longboarder, a permanente dúvida existencial entre o clássico e o progressivo...

Apesar desta proposta penso que, pelo menos durante a edição deste ano do festival, todas as dúvidas ficarão apaziguadas...

SALINAS X _ EL DILEMA from Jan Latussek on Vimeo.



Apreciem o teaser do festival, no qual também se homenageará um longboarder local, Rodro, falecido no ano da primeira edição do festival...dava um excelente filme de surf!

"Lost in The Ether" - Andrew Kidman

Depois de "Litmus" e de "Glass Love" e de mais alguns trabalhos menos conhecidos por estas bandas, Andrew Kidman apresentou em Dezembro de 2010 mais um filme. O trailer anuncia um conjunto de imagens, sons e reflexões sobre as relações entre passado e presente na experiência de surfar com shapes de outros tempos.
Infelizmente este ultimo filme foi lançado numa edição limitada a 1000 exemplares, mas com direito a livro de capa dura (21cm x 21cm) com fotografias, entrevistas e histórias sobre o filme.

Os interessados que se apressem, talvez ainda vão a tempo de garantir o vosso exemplar!

Lost in the Ether from Andrew Kidman on Vimeo.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Surf sem preconceitos ou tendências!!!

Homenagem seja feita a um dos mais inspirados realizadores de filmes e clips de Longboard e Retro-Surf da actualidade, Nathan Oldfield.
Este magnifico clip produzido para a Valla Surfboards transmite exactamente o espirito e uma das principais características da verdadeira Cultura de Surf, o despreconceito.
"What you ride means nothing, how you ride means everything".
Inspirem-se...

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Solitude...



Hoje sinto-me assim...Alíás sempre me senti assim.
O surf para mim sempre foi isto, uma trilogia entre o homem, uma atmosfera mágica e uma prancha harmoniosa.
Como sempre gostei daquelas ondulações amenas, que relaxam o vento e pintam no céu nuvens de vários tons!!
Em dias assim toda a costa funciona...É então possível que por detrás de um qualquer denso canavial, ou no fim de uma estrada empoeirada, os mais astutos caçadores de ondas...
...Encontrem a mais feliz solidão.

Autoria: André Falcão, 2011

sábado, 2 de abril de 2011

O que é nacional, é bom!

Nacional, com muito de internacional. Alex e Sebastiano, dois membros dos extintos Three and Quarter, formam agora esta dupla, os Youthless.
Quem não se lembra das intros dos Three and Quarter nalguns concertos de outras bandas mais conhecidas ou os concertos em festas no final de campeonatos de Bodyboard? Na minha opinião o seu ska poderoso e produção original, por vezes, aquecia-me mais que as bandas principais.
O som deste novo projecto é bem diferente, mas continua com força e a dar vontade de dançar.
O Alex é nosso senhorio, pode ser que a publicidade dê direito a algum desconto na próxima renda...se não der não tem problema, é uma forma alternativa de "mecenato".
Importante mesmo é que continuem a desenvolver boa música.




Para os que me são mais próximos, neste clip não gosto apenas da música, nem da excelente linha do baixo!

quarta-feira, 23 de março de 2011

Desintoxicação...

E há um dia em que ela surge, com modos timídos, vai marcando a sua presença lentamente.
Insidiosa, veio, e muito provavelmente, para ficar.

Vai-me lembrando todos os dias que está comigo, que vai ser minha parceira, que casou comigo por contrato.
Estávamos destinados um ao outro desde o nascimento,
Eu é que desconhecia esse contrato hereditário, com cláusulas tiranas a fazer lembrar casamentos étnicos...

E há um dia em que num momento tudo muda, em que ela nos cobra e possessiva, não é do estilo de bater com a porta e nunca mais voltar.
Ela fica para me corroer por dentro!

O futuro deixa de ter várias ruas, o sonho passa a conformismo, a sanidade perde a sua fonte, as cores do mundo mudam e fico a ver de longe aquela que foi e podia ser a minha Liberdade.
Mas que por qualquer lotaria "clássica" não me saiu a mim.

Sou assim excomungado da minha religião, submisso ao teu livre arbitrío e ao teu sadismo.
Agora resta-me esperar que te canses, que o meu desprezo te frustre,

Mas os frutos deste nosso envolvimento, terei que os sustentar para sempre...

André Falcão, 2011

segunda-feira, 21 de março de 2011

Doce Liberdade

Gosto de Blogs, porque tal como no surf, a escrita flui à medida que a vida nos interpela com secções inspiradoras, lips marcantes, ou espumas inesquecíveis.
Para tudo há sempre prazos, compromissos, obrigações, competições, conflitos, intrigas, mesquinhez, dependências, desconfianças, opiniões, inveja, pressões e preconceitos...
Pois, aqui só escrevo quando me apetece, quando sei que vale a pena!
E posso apanhar as que quiser, pois não há quem me cale!
Doce Liberdade essa de poder optar por não entrar, por não alinhar, é que às vezes não apetece!
Sobretudo se for para irmos todos para o mesmo pico, defender a mesma coisa.
Mas o Blog aqui está, tal como o mar, à espera que me inspire e que decida cravar-lhe os meus rails, escrevendo umas linhas.
Doce Liberdade, não cobras ao acaso a genuinidade.

André Falcão, 2011

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Dia dos Namorados!

O Dia dos Namorados comemorou-se esta semana e, de acordo com a efeméride, eu tratei de arranjar uma nova "namorada".

Claro está que a próxima sairá das mãos destes senhores .

Já lhes disse... que não quero nenhuma top-model, cheia de futilidades e susceptibilidades.
Desta vez, também não quero nenhuma "cavalona" com mais de 9 pés de altura.
Quero uma "namorada" simples, bonita, de estilo clássico, harmoniosa e cujas mudanças de "humor" eu consiga aguentar.
Enfim, uma verdadeira companheira de onda!

Mais novidades sobre o desenrolar desta nova relação, é fazer o favor de aguardar...

Autoria: André Falcão, 2011

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Leroy "Granny" Grannis 1917-2011



Infelizmente passou despercebido à maior parte da imprensa especializada aqui do "rectângulo", o falecimento do fotógrafo Leroy Grannis aos 93 anos.
Grannis é considerado um dos mais importantes fotógrafos de surf de todos os tempos, não por ser o primeiro a dedicar-se a este trabalho, nem por ter dedicado toda a sua vida a esta actividade. Grannis, também não ficou conhecido por ser um inovador. Grannis limitou-se a seguir os melhores do seu tempo, mas fê-lo de tal forma que se tornou uma referência. Na verdade, muitas das imagens que contribuíram e foram responsáveis pela construção do imaginário do surf moderno, com raízes na era de ouro do surf na Califórnia dos anos 60, têm a assinatura deste mestre como legenda.

Grannis exerceu várias actividades ao longo da sua vida. Foi carpinteiro, alistou-se na Força Aérea Americana e foi empregado numa companhia de telefones americana, a Pacific Bell Telephone.
O trabalho neste local trouxe-lhe alguns problemas de saúde, sendo que um médico lhe aconselhou a procura de um hobby. E foi, então, que um amigo fotógrafo, chamado Doc Ball, lhe sugeriu que experimentasse a fotografia.

O surf já fazia parte da vida de Grannis, pois nascido e criado em Hermosa Beach - Califórnia, desde cedo que teve contacto com os desportos de ondas, mas a fotografia de surf como carreira surge apenas aos 42 anos de idade.
As primeiras imagens captadas pela sua lente são de surfistas e da atmosfera do surf de Hermosa Beach, acabando por ter os seus primeiros trabalhos publicados na Reef Magazine em 1960. Rapidamente, passou a estar dividido entre a Califórnia e o Havai, registando as imagens de surf da era do longboard do início dos anos 60, onde retrata todo o ambiente de novidade e liberdade vivido, dentro e fora de água, em praias como Malibu, Huntington Beach, Laguna Beach, ou Sunset e Pipeline.
Grannis contribuiu com a sua obra fotográfica e com o seu envolvimento, para as principais publicações de surf da época, tais como a Surfing Illustrated, a International Surfing e a Hang Gliding Magazine e os seus registos, sobre o quotidiano surfístico da época e suas personagens: surfistas, miúdas, shapers e as suas "bombas", foram então largamente divulgados e utilizados em publicidade.



A época aúrea do trabalho de Grannis centra-se no período pré-shortboard revolution, ou seja, do inicio dos anos 60 até ao inicio dos anos 70. Evidencia-se uma perda de entusiasmo no seu trabalho a partir do momento em que Greenough, McTavish, Nat Young e Lynch iniciam a sua revolução "minimalista".
Apesar disto, num tempo em que o surf era mais que um desporto, num tempo em que o surf era algo novo, num tempo em que o surf era um estilo de vida, Grannis teve o mérito de ter sido um dos principais responsáveis pela sua divulgação, na sua forma mais genuína.

Grannis apanhou a sua última onda em 2001 e, agora, 10 anos depois deixa-nos a todos mais pobres. Resta-nos apenas rever o melhor do seu trabalho numa excelente edição da conhecida editora Taschen.

"Leroy Grannis - Surf Photography of the 1960s and 1970s", depois de uma primeira edição limitada para coleccionador que esgotou quase instantâneamente, lançaram uma nova edição com uma interessante selecção de fotos, que vão desde fotografias de dias de surf com ondas perfeitas em San Onofre, a dramáticas quedas no famoso North Shore de Oahu, ou a belissímas Woody Station Wagons fotografadas ao longo da Pacific Coast Highway.
A não perder para o amantes do clássico, salientando que o preço, como é comum para a Taschen, é imbatível.


domingo, 30 de janeiro de 2011

"Longboarding is Punk!!"



Tudo o que se diz por aí e nos nossos media sobre surf está muito bem...mas surf na sua essência é isto!
Joel Tudor Duct Tape Invitational by Vans - Santa Cruz, o "anti-contest contest"!
O carismático Joel Tudor decidiu apoiar o surf exímio daqueles que escolhem outros tipos de shape, que raramente competem e que dificilmente conseguem ganhar algum dinheiro com o surf.
Para isto, Joel "proibiu" os leash's, o excesso de fins e tudo o que flutuasse com menos de 5kg de peso. Convidou 16 dos melhores longboarders clássicos do mundo e mais algumas lendas do longboard como Nat Young e Herbie Fletcher, para uma competição em Steamer Lane-Santa Cruz, Califórnia, onde o mais importante é a diversão e a reunião de toda a "tribo".

Joel refere que: "it's more fun to hang out with your friends than the guy who caught the best wave."

As condições do mar, neste evento tão singular, só podiam estar clássicas e Steamer Lane recebeu este "encontro de amigos" com um clima primaveril, glass e com ondas com óptima formação e consistência.

Para além dos prémios para os vencedores houve também um prémio para o melhor sacrifício infligido a uma prancha, o board sacrifice. Este segundo Joel é um dos momentos altos do evento, como ele próprio explica: "That was one of the highlights of the contest. When I was a kid, I did a contest here and the waves were really flat and this guy rode his board straight into the rock. It was incredible. A board sacrifice is so necessary because somebody is going to lose their shit."
O board sacrifice foi ganho por Chad Marshall, após disputa renhida com o surfista local Jason "Ratboy" Collins, cuja prancha se mostrou indestructível. Chad ganhou $1,000 por conseguir o melhor ding do evento, depois de lançar a sua longboard para as rochas, provando que a sua prancha era uma verdadeira "shittier board".

Para terminar, o menos e o mais importante.
O menos importante, o vencedor: Alex Knost.
E o mais importante, o próximo evento vai ser bem perto de nós, em Espanha na costa das Astúrias, numa praia clássica para longboard, Salinas.
Segundo as palavras do mestre: "The next one is going to be a blast, We're going to be in Salinas, Spain and then drive back to France afterwards. It's cool because Vans is helping everyone out and none of these kids have the comfort of getting to travel with a budget so they're used to having the best time they can in the shortest time they can."

Mais uma vez Joel Tudor em conjunto com a Vans a liderar e a provar que o movimento contra-cultural do surf está bem vivo.
Vale a pena a consulta:

Vans Duct Tape Invitational
Autoria: André Falcão, 2011
Fonte: http://www.surfline.com/

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Al"ex"ternative

Alex Knost é um surfista , residente na California, conhecido pelo seu surf clássico de movimentos refinados, que lhe conferem um estilo único.
A sua visão do surf é muito contra-cultura.
Alex inflama o seu discurso nalgumas respostas a entrevistas para revistas de surf, apelando às origens alternativas e underground do surf e a uma postura de certa forma politicamente incorrecta na forma de encarar o longboard progressivo e o surf moderno e de massas.
Recusando rótulos, os seus talentos não se ficam apenas pelo surf, passando também pelas artes plásticas, pelos audiovisuais e pela música.
Surpreendentemente, Alex é vocalista dos "Japanese Motors", cujo tema "Spendin' Days" integra a banda sonora do filme "The Present" de Thomas Campbell.

E porque não colocarmos os leash's de lado e deslizarmos pelo seu som de linha clássica e pelo seu surf retemperador?!

André Falcão, 2011





Agora misturam-se os dois e voilá...

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Colecção de Pintura "de Bolso"


Lembram-se da colecção Livros de Bolso da Europa-América?
Democratizaram muitas obras conhecidas, quer pela sua dimensão reduzida, fácil de transportar, quer pelo seu preço, acessível a todas as bolsas.

Embora totalmente diferente, o livro EN-2, da autoria do Designer, Ilustrador e Soul Surfer João Catarino, é uma obra original por esse facto, ser praticamente uma colecção de pintura condensada num pequeno livro, cujo tema ou contéudo o transforma num valioso guia.
Guia de um roteiro pelas raízes presentes nas terras que a estrada EN-2 atravessa.

Finalmente encontrei o bonito livro de encadernação amarela e pude adquiri-lo.
Foi então com deleite que, nas horas vagas deste bonito dia de sol, viajei com o João e o Buggy na sua belissíma VW "Pão de Forma" ao longo dessa "estrada esquecida".

E marco a marco por entre montes e vales, banhos de rio, aldeias desaparecidas, campos de girassóis, linhas de comboio desactivadas, gentes cheias de história, lá vamos caminhando ao ritmo dos desenhos e da velhinha mas fiel carrinha, enchendo a alma de vida, de simplicidade e de liberdade.

O João, tal e qual a Europa-América, democratizou este seu apaixonante projecto, partilhando as pistas para lhe seguir as pegadas, não só em idêntica odisseia, mas também na selecção daquilo que a vida tem de mais relevante e autêntica. As raízes, os costumes e a cultura do nosso país, presente não nos livros, nos museus ou nas galerias, mas na realidade.
Sendo um leigo em matéria artistíca sinto que o seu trabalho e os que vem mostrando no seu blog há alguns anos remetem para pormenores que aparentemente simples à partida, são, na verdade após a passagem pelo crivo do João, elementos chave da matéria que compõe os lugares, as paisagens, as pessoas e os objectos.
O João capta-lhes a alma.
Para o observador é um estimulo à sua sensibilidade estética, um desafio à distinção entre o bom e o mau, entre o bonito e o feio, entre o essencial e o supérfluo.
Na velocidade de auto-estrada da vida, o João obriga-nos a travar e convida-nos a contemplar...
Autoria: André Falcão, 2011
Imagem retirada do blog do João Catarino: www.desenhosdodia.blogspot.com

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Frase do Dia

Hoje algures numa estrada na zona Oeste do nosso país, encontro um sinal de trânsito com o seguinte aviso, passo a citar:

"ESTRADA SEM SINALIZAÇÃO"

Não sei porque...mas não me saiu mais da cabeça a frase.

Já estou a imaginar o dilema do "Engenheiro" responsável pela manutenção daquela estrada: "HHUUUM, bem, mandamos pintar ou colocamos um aviso???"
Após estudo exaustivo da questão concluí:"Colocamos um aviso, que os tempos são de crise."

Hilariante...

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Apanhados...

Curioso não dei por nada:

Ver Aqui...

"Only a Surfer Knows The Feeling..."

Correndo o risco de soar a polémico esta é uma reflexão que não quero deixar de partilhar.

Já pensaram no seguinte, se o surf não for saudável? Se o tão aclamado “stoked” não passar de um comportamento compulsivo prejudicial? Se o surf afinal não nos tornar mais capazes de enfrentar desafios? Se para alguns de nós este se tornar até num obstáculo ao nosso desenvolvimento enquanto pessoas e numa fonte de frustrações para alguns, cuja maturidade e por sua vez responsabilidade não estejam adequadamente desenvolvidas cuja vida não tem outras fontes de prazer ou interesse?

Como Psicólogo, de formação apenas, penso estar em condições de afirmar que, sem ter efectuado nenhum estudo apenas consultado alguma da ainda pouca investigação sobre a relação entre surf e mecanismos mentais, o surf provoca sensações de bem-estar, prazer e por vezes até uma posterior sensação de relaxamento, mas de duração relativamente curta dependendo de uma série de outros factores como o estilo de vida ou a personalidade do individuo.

Todos sabemos que muitos atletas podem ter performances excelentes nas modalidades que praticam, mas noutras componentes da sua vida terem enormes limitações ao nível da sua confiança, ansiedade, concentração, entre outras áreas emocionais, cognitivas e comportamentais. Isto explica-se pelo facto de estes ao longo dos anos de prática terem conseguido desenvolver estratégias específicas para o contexto de prática da modalidade, não conseguindo transferi-las para outros contextos. Tal como um individuo com um traço de ansiedade elevado, em situações sociais por exemplo, mas que na situação de prática consegue controlar a sua ansiedade de estado. Isto pode suceder porque o nível de experiência nessas outras situações não é igual e as exigências são totalmente diferentes consoante as situações e os contextos.

Outro facto em que a prática de surf poderá ser impeditiva do desenvolvimento de competências, deve-se ao facto de o surf ser uma modalidade individualista. O que numa sociedade onde são cada vez mais importantes competências como o saber trabalhar em equipa, o surf pode não ajudar. A agravar em relação a outros desportos individuais, o facto de no surf se disputar o próprio “campo” onde a modalidade se desenvolve, algo que não acontece noutros desportos individuais como a natação ou o ciclismo.

Por outro lado, o prazer gerado pela prática de surf, ou seja os momentos de êxtase, exaltação que provocam sensações de bem estar, relaxamento ou evasão tantas vezes referidos como uma das singulares características do surf,será que poderão levar a situações prejudiciais como a um conflito entre a realidade e o prazer? E se sim,isto poderá ser provocado por causas biológicas?

De facto, quando vivenciamos situações de prazer o nosso cérebro segrega um neuro-transmissor denominado de dopamina. Esta activa o nosso sistema-nervoso simpático (que regula a funções automáticas do nosso corpo como os batimentos cardíacos, a respiração ou a digestão) e pode dependendo das situações activar a segregação de outros neuro-transmissores como a adrenalina e a noradrenalina que activam o nosso corpo estando associadas a sensações de energia, boa disposição e activação extrema dos sentidos. Estes neuro-transmissores vão actuar na activação de algumas áreas cerebrais como o Cortéx Pré-Frontal e o Sistema Límbico, composto entre outras partes do cérebro pelo Hipotálamo e a Amígdala Cerebral. Estes são responsáveis pelo processamento, interpretação e memorização da experiência das nossas emoções e sentimentos mais básicos.
Deste modo, a experiência intensa de prazer provocada pela prática de surf pode estimular estes neurotransmissores e levar à memorização da sensação no córtex pré-frontal, passando existir uma associação que leva a uma sensação positiva associada à prática de surf, uma motivação. O que pode eventualmente acontecer e se pode tornar prejudicial, sendo interessante perceber se isto se verifica ou não, é o surf constituir uma dessas situações em que a exposição intensa faz aumentar os níveis de dopamina no cérebro, como no caso do consumo de drogas ou do jogo patológico. E o que no início seria apenas uma motivação pela experiência, em hipótese se poderia tornar numa reacção mal adaptativa de causa biológica. Ou seja, quando falamos em vício pelo surf, poderíamos então estar a falar de um fenómeno compulsivo, gerado por um processo semelhante ao dos comportamentos adictivos, em que o aumento dos níveis de dopamina diminui a actividade dos neurónios receptores da dopamina, por um mecanismo natural de homeoestase. Instala-se então uma tolerância ao estímulo, que neste caso seria o surf, passando a haver uma necessidade maior de produção de dopamina no cérebro, o que conduziria, para se responder a esta necessidade de dopamina, a ter que se fazer mais surf.

O que vou verificando por observação empírica dos meus comportamentos e de algumas pessoas ou jovens surfistas é que em caso de privação, como no álcool ou nas drogas, os níveis de ansiedade aumentam na ausência de surf, aumentando também a sensação de necessidade de fazer surf, de receber mais gratificação ou recompensa, o que muitas vezes vai prejudicar ou adiar a realização de outras actividades. No entanto, as alterações cerebrais, a existirem no caso do surf, provavelmente não deverão ser tão grandes como quando se trata do consumo de substâncias.

Constitui-se então uma interessante questão de investigação, que de uma forma muito simples seria: Poderá o tão romântico “stoked” do surf ser prejudicial? Haverá modificações significativas no nosso funcionamento neuronal para que possamos falar em adicção? Quais os factores de risco que levam uma prática saudável a tornar-se disfuncional? Qual o papel dos média e da indústria neste facto, ao vender, muitas vezes, um ideal já muito intoxicado pela lógica do lucro puro?

De facto, toda a euforia com o surf tem várias razões, mas há que ter em conta que pode não haver relação nenhuma entre fazer surf e ser mais feliz, no sentido pleno do termo, mais forte, confiante ou conseguir tolerar melhor alguns obstáculos na vida. O que eventualmente acontece, em pessoas com sintomas depressivos, é com a prática verificar-se a diminuição de alguns sinais de depressão ou tristeza pelo bem- estar gerado pelo surf. E o mesmo facto que leva a isto nestas pessoas, pode gerar nos indivíduos que se sintam bem consigo mesmos, a uma focalização excessiva no surf, que em situações e contextos exigentes os faz desistir de ultrapassar o obstáculo e preferir o “ócio” que o surf proporciona. Seria, então, interessante perceber o que leva a uma situação ou a outra, sendo possível lançar algumas hipóteses, como a falta de maturação da personalidade, ou a ausência de outros tipos de interesses ou estímulos, ou uma sobre-valorização da actividade, que em coordenação com o processo descrito em cima pode levar a situações de dependência.

Eu pessoalmente, e como se pode ver, sou fascinado por este potencial do surf, interessando-me por tentar perceber que efeitos tem o surf sobre nós e procurando compreender os fenómenos que levam a afirmações como as de Nat Yong, Shaun Thompson e tantos outros, e a slogans como os da Billabong. Tem que existir uma explicação racional e científica para o efeito poético do “stoked” , mas simultaneamente ao pensar nisto não posso deixar de levantar o véu responsável da reflexão moral sobre o assunto e do prejuízo que isto pode envolver, caso se possa chamar de dependência.

Assumo que este texto pode sugerir incoerência, sobretudo a quem me conhece, mas compreenda-se que me assumo também, e apesar de tudo o que já disse, como um viciado. Não estando, deste modo em negação e depois de muita introspecção, estou consciente da minha dependência, mas escolho conscientemente continuar agarrado a esta possível dependência, mas na forma poética e de contra-cultura, hoje em dia e em Portugal, ainda tão pouco compreendida. Pois, caso o surf se possa classificar com potencial de dependência, esta forma poética será a única forma que eu vejo de dependência “saudável”.

Autoria: André Falcão, 2010

domingo, 14 de novembro de 2010

Cultura de Surf...

Prancha chavão para um surfista português:
Obstinadamente leve, tem que ser leve, custe o que custar.
Mais pequena que a do vizinho do lado.
Com uma cor bem viva...o branco.
De preferência de um Shaper estrangeiro, uma Al-Merrick seria o máximo!
Se for Nacional, deve ser quase oferecida...
Senão funcionar:
A culpa é do Shaper, que a fez pesada e volumosa. Eu sabia que devia ser branca!

Porquê isto? Vá, nós sabemos bem porquê.

Cultura de Surf...Nah, Moda de Surf.

(Obrigado ao Sérgio pela partilha. Tarde bem passada, compensou a falta de ondas)

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Eddie's Day

Este é um daqueles filmes que me perturba. Eddie's Day é um filme sobre os 25 anos do Memorial Eddie Aikau no Hawai.

Começando pelo princípio, Eddie Aikau, por volta dos anos 60, destacou-se por ter sido o primeiro oficial salva-vidas da baía de Waimea, salvando durante a sua carreira inúmeras vidas. Como se isto não bastasse para ser uma verdadeira lenda daquela baía, Eddie torna-se conhecido e respeitado por ser um dos pioneiros do surf de ondas grandes na baía de Waimea e pelas suas navegações de longa distância em canoa.

Nos anos 70, Eddie Aikau foi também um dos primeiros surfistas profissionais do Tour, chegando a pontuar entre os 16 melhores.
Conhecido pela sua humildade e espiríto de ajuda, foi um dos grandes divulgadores do espírito "Aloha" havaiano.
Infelizmente, corria o ano de 1978, Eddie desaparece tragicamente no mar aos 31 anos, depois de a sua canoa Hokule'a ter ficado à deriva no meio do oceano numa travessia entre o Hawai e o Taihiti. Segundo consta, Eddie desaparece ao tentar salvar o resto da tripulação.
O seu corpo nunca foi recuperado, mas o seu espiríto e legado permanecem, dando origem a uma das mais famosas histórias do mundo do surf.

Mas o filme que a gigante Quiksilver ajudou a produzir, é sobre a homenagem que vem sendo prestada aquela grande personalidade, desde o Inverno de 1984/85, ainda na praia de Sunset.
"The Eddie", como é conhecida esta competição, passou a realizar-se em Waimea a partir da temporada de 1985/86, consagrando ao longo da sua história nomes como Denton Miyamura (1985), Clyde Aikau (1986), Keone Downing (1990), Noah Johnson (1999), Ross Clarke-Jones (2001), Kelly Slater (2002), Bruce Irons (2004) e Greg Long (2009).
Mas o filme é mais do que uma mera descrição dos eventos, é uma analise à forma como o surf de ondas grandes tem vindo a evoluir. É um filme que demonstra a importância que as cameras e a cobertura televisiva deram ao tornar este tipo de surf reconhecido.
E a evolução era inevitável, o desafio passou a ser não só executar bons drops, como arriscar algumas manobras e tubos, que são absolutamente de cortar a respiração.

Em Portugal, o filme foi estreado no último Sábado num evento produzido pela Quiksilver, na sequência da prova do WQS de 6 estrelas em Ribeira d'Ilhas, e entre ssseee's, psshhii's e eeeeissh's se passaram os cerca de 45 minutos do filme, durante os quais os presentes poderam assistir à forma destemida como nomes da velha guarda, como Clarke Abbey e Eric Haas, não perdem uma oportunidade de surfar aqueles swell's em Waimea.
O filme é verdadeiramente absorvente e a nossa atenção é toda dispendida para as prestações absolutamente inacreditáveis de Slater, dos irmãos Irons, do Uncle Titus Kinimaka, de Greg Long e do primeiro brasileiro a participar Carlos Burle.

Deixo-vos aqui um pouco do que poderam assistir neste filme, alertando-vos para o facto de que a simples visualização do filme vos poderá deixar doridos.

Eddie's Day - Quiksilver - OFFICIAL Surf Teaser from vas entertainment on Vimeo.

domingo, 10 de outubro de 2010

Surf ...Fútil?

O surf é uma das mais inuteis actividades humanas.
Na verdade, e contra mim escrevo, a sua simples prática para a maior parte das pessoas nada produz, se entendermos o "produto" como algo de útil para um outro ou uma comunidade.

Serve apenas para satisfazer as necessidades hedonísticas de cada um.

Isto só não é verdade se fizermos parte, ou estivermos perto de fazer parte, daquele lote de 32 atletas que por estes dias decoram as ondas de Peniche com vôos profundos e altos tubos, satisfazendo, neste caso, as necessidades estéticas de todos nós.
Nesse caso sim, produzem-se verdadeiras industrias de "imagem" que cresçem em sentido contrário a todas as crises.

No entanto, existem por ai outras formas de tornar esta actividade tão útil como importante para algumas pessoas.
Aqui fica o link para quem não conhece, vale a pena dar uma espreitadela:


Esta é uma das formas de surf úteis em que acredito, justificando todo o conhecimento que se possa produzir em torno da mesma e toda a publicidade que se lhe possa fazer.





quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Mudanças


Descobri ultimamente que para mim o conceito de mudança é tão importante como o de Liberdade.
Obviamente nunca somos verdadeiramente livres, contudo percebi que mudar é como apanhar mais uma onda, nova e se possível maior que a última.
Mas sempre integrado numa lógica rotineira e cíclica à qual não se pode fugir, de voltar a remar para o pico, levar provavelmente com o resto do set e sentar-me no outside na busca de uma nova onda, ainda melhor, e mais perfeita que a anterior.

Por isso nos ultimos meses remei para uma,
Mudança de Terra,
Dropei uma
Mudança de Casa,
Manobrei uma
Mudança de Trabalho...
e entubei, agora, numa
Mudança no Blog.

Para o Futuro não sei o que os sets me reservam, mas espero que, seja o que for, envolva uma ou outra livre Mudança, assim com a mesma fluidez com que o Gregório Mudava de direcção nos Coxos.


Foto: André Falcão, 2010

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Nocturnos...

psssttt...estás acordada?
agora estou.
não consigo dormir.
faz um esforço, fecha os olhos.
não consigo, estou a ouvir o vento...
está a bater na janela.
pois...está leste.
e ouvem-se bem as ondas.
deve estar maré vazia.
siiiim...essas tuas teorias, vá, mas agora dorme.

não dá, amanhã vou Surfar.

sábado, 3 de abril de 2010

O Gipsy do mar


Março de 2010,
10:30 da manhã,
Carcavelos, parque da Pastorinha,
Céu limpo com bastante sol,
Brisa de norte muito fraca,
Ondas de 0,5m sets maiores, com ondulação de 3,4 metros de noroeste com período 12,
Maré a encher por mais umas quatro horas,
Crowd suportável.

Isto podia ser uma estrofe de um poema qualquer, pois estas condições soam mesmo a poesia, mas não...
Servem estas palavras apenas para contextualizar uma pequena conversa verídica, entre mim e um jovem de etnia cigana com os seus 10 a 15 anos de idade.
O jovem abordou-me ao cimo das escadas que dão acesso à praia, enquanto eu, sentado e distraído, me entretia nas minhas leituras de mar.
-Sabe, senhor, que encontrei um tesouro nesta praia!? - disse o rapaz, com um à vontade desconcertante e de certa forma provocador.
Fui, assim, repentinamente resgatado das minhas imagéticas previsões de manobras nas ondas que enrolavam diante de nós, e respondi de forma distante, pensando logo no último local onde tinha visto a minha carteira.
-Ai foi??
-Foi! Foi, enquanto passeava pela areia, mas não sei se este tesouro vale alguma coisa!- continuou ele.
Respondi num tom desinteressado, do tipo "calha-me com cada maluco..."
-Se vale ou não alguma coisa, tu é que sabes...
-E o senhor não me poderá dizer? Provavelmente, não posso fazer nada com ele. - insistiu o rapaz num tom grave, irrevogável.
-Não, não te sei dizer. Olha, o melhor será ofereceres o teu tesouro a quem lhe dê melhor uso. - continuei desconfiado, tentando despachar o jovem.
Nisto o jovem cigano afastou-se, colocou-se vestido debaixo do chuveiro de praia e abriu a água, ficando literalmente encharcado.
Não consegui evitar uma gargalhada. Se o objectivo do jovem era captar a minha a atenção e derrubar as minhas defesas, tinha acabado de atingir o seu objectivo.
Sacudiu-se e aproximou-se novamente...
Desta vez já olhando para ele, perguntei-lhe sorrindo:
-Então e agora não ficarás com frio?
Encolheu os ombros dizendo:
-Não me interessa, esta minha descoberta deu-me vontade de fazer isto. Não lhe sabe bem fazer o que lhe apetece?
Já preparado para lhe responder, argumentando algo sobre o que fazer, como fazer e onde fazer; decidido a partilhar os meus pensamentos sobre o que está correcto e o que está errado, não me saiu nada. Nem uma palavra consegui articular.
Senti-me atolado, preso em regras sociais...e apenas exprimi...um amordaçado:
-Humm...!
E ele perguntou com uma lucidez crua, quase incriminatória, pondo a descoberto os meus preconceitos:
- Há pessoas que pensam logo que sou cigano, o senhor é dessas pessoas?
-Não tem mal nenhum ser cigano, um cigano não é nem melhor, nem pior que outra pessoa qualquer. - defendi-me num tom ridiculo, de tão politicamente correcto que tentei ser.
-Pois, eu sou um "senhor" como você.
Concordei acenando com a cabeça e ali ficámos uns instantes em silêncio, olhando o mar.
Já completamente surdo com aquele silêncio, fiz-lhe algumas perguntas sobre se estava de férias, se tinha vindo sozinho para a praia, ao que me respondia de forma curta e com indiferença. Algo monopolizava o seu pensamento e o inquietava tornando a sua presença desconfortável, até que perguntou:
-Não veio para fazer surf, senhor?
-Sim.
-Então, e não vai? - questionou, não se apercebendo que ele era a razão de eu ainda ali estar.
-Vou, mas agora só depois de mostrares o tesouro que descobriste. - respondi.
-O tesouro que descobri não dá para lhe mostrar e não lhe sei dizer que valor terá.
Pensei novamente, que o cigano me estava a dar "baile".
-Então...? - insisti.
E o rapaz que há pouco me parecia a personificação da liberdade, respondeu:

-Quando vinha na praia, vi um senhor numa onda e senti vontade de fazer o mesmo que ele... Mas provavelmente nunca o poderei fazer.
Reconheci de imediato aquele brilho que o tesouro dos sonhos desenha nos olhos.
Autoria: André Falcão, 2010

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Old Skool Originals


Existem locais aos quais tenho que recorrer para encontrar alguma paz e me recolocar enquanto ser. Locais de reencontro comigo, de formatação e limpeza, após as rotinas diárias, entediantes e muitas vezes psicologicamente tóxicas.
Por muito estranho que possa parecer, como não frequento igrejas e nem sempre é possível ter tempo para me encontrar com o mar, recorro a livrarias só para passear sozinho e encontrar alguma paz.

Numa das últimas vezes que o fiz, encontrei no meio do caos de cor das lombadas, uma capa que se destacou pelo seu padrão "black-and-white checkerboard". Deparava-me então com uma obra literária interessante sobre uma marca que, através da criação de um sapato de lona inicialmente fabricado de forma artesanal por Paul Van Doren, conseguiu criar um espaço próprio na cultura pop das últimas quatro décadas.

Vans "Off-the-Wall": Stories of Sole from Vans Originals é um documento enérgico e original que ilustra, através de fotografias e relatos íntimistas de nomes importantes do BMX, da música, do sk8, do surf e da cultura de rua, nomeadamente Tony Alva, Joel Tudor, Steve Caballero, Stacy Peralta, Oliver Peck, a história destas várias gerações de personalidades e de como a empresa mudou a face da cultura pop desde a sua fundação em 1966.
Para além disto, encontrei também curiosidades como a explicação para a utilização da "SideStripe", assim como a origem do slogan "Off-the-wall" e a razão da sola em formato "Waffle" dos meus já muito gastos ténis "Old Skool Originals".

Uns Vans podem ser uma peça de arte contemporânea ou os melhores ténis para uso diário, um fenómeno íconográfico ou talvez de design que cria sentimentos irracionais em torno dele, associado a uma ideia simples que resulta e perdura ao longo do tempo.

Caminhando com os meus já gastos "Old Skool Originals" acabei por trazer o livro para casa.
Autoria: André Falcão, 2010
(Fotografia dos ténis Slip-on da autoria do fotografo Diogo Potes, retirada da internet)





segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Publicidade

Pelo menos conscientemente, a publicidade não costuma funcionar muito comigo,mas neste caso...



...estou convencido!!

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Classic Cars to Surf

Eu não gosto de luxo, nem de conduzir a grandes velocidades, nem de grandes tecnologias, mas assumo que gosto de carros.
Gosto do seu significado, até para o surf. Surf, viagens e automóveis são conceitos indissociáveis.
Gosto da sua funcionalidade, com diversas utilidades.
Gosto de mecânicas simples, mas de fiabilidade comprovada.
Gosto do metalico, irregular e explosivo som dos motores simples...
Portanto, hoje deu-me para pensar nos melhores carros para se ir surfar...

E a minha escolha, é a rara Renault 4L F4:


E claro a velhinha Volks BayWindow, carinhosamente apelidada de Pão de Forma:



quinta-feira, 12 de novembro de 2009

One California Day

Sem dúvida que Jason Baffa é um dos melhores realizadores de filmes de surf da actualidade.
A prova disso está neste filme "One California Day". Um retrato de sete diferentes personalidades, e das suas vidas em diferentes zonas do litoral do Estado da California.
Nomes como Joe Curren, Tyler Hatzikian, Devon Howard, Dane Perlee, Alex Knost, Jimmy Gamboa, Joel Tudor, compõem esta história sobre surf e tradição.
Não é preciso, de facto, ir até muito longe, para se fazer um excelente filme de surf...Basta uma boa ideia.
Baffa procura nos seus filmes mostrar a diversidade e liberdade que está associada ao surf, contribuindo muito, na minha opinião, para uma construção/re-construção do conceito de surf, onde se integram elementos do passado e do presente.
Há um sentido histórico e estético nos seus filmes.
Deixo aqui uma brisa da óptima experiência visual que é este filme:

De que fibra se faz um Shaper?

Às vezes tenho momentos em que me apetecia largar tudo, deixar tudo para trás e mudar de vida. Mas o que fazer depois?
Há empregos que não surgem nos anúncios de jornal, um deles é a profissão de Shaper e confesso que, por vezes, me passa pela cabeça a utopia ou o desvario de o ser.
Este é um desejo vulgar entre aqueles que gostam de surfar e que se deixam envolver pelo desejo de apanhar uma onda numa prancha que nasceu na nossa mente e amadureceu nas nossas mãos.

Penso que há uma beleza singular neste “ofício”, sobretudo quando é realizado por aqueles que são bons a executá-lo, aqueles com vasto número de pranchas feitas, um total domínio da teoria e que conciliam tudo isto com uma prática apaixonada de surf.
Povoam nas suas mentes, tal como na de um arquitecto, inúmeras possibilidades de comprimentos, larguras, espessuras, formatos de rails, curvaturas de rocker, tipos e posicionamentos para as quilhas, tudo pensado a 3 dimensões.

Nas suas mãos, uma habilidade e exactidão técnica de engenheiro, faz surgir a partir dos materiais a combinação e a relação certa entre as formas, as diferentes partes e elementos que, num todo, rasgarão a água com a velocidade e precisão necessárias.
O trabalho actual de um Shaper partiu de um conhecimento empírico com origem em observação, opiniões e experiências partilhadas entre surfistas ao longo das épocas, métodos de tentativa e erro que geram um saber-fazer que foi passado de geração em geração. Hoje é desenvolvido em diferentes níveis, industrialmente, baseando-se em técnicas cientificas, ou então, de forma mais romântica com meios e habilidades de artífice.

No entanto, o cientista, tal como o artesão, têm que conjugar a sua arte com um largo conhecimento sobre as principais ondas da sua região, país ou mesmo do mundo, nomeadamente no que respeita a tipos fundo, ventos mais frequentes, tipologia da própria onda, ondulações predominantes, etc.. Fenómenos naturais compreendidos e explicados com a mesma profundidade com que um oceanógrafo o faria, todos eles da maior importância no momento de começar a medir, a cortar e a lixar.

Mas antes disso, o Shaper tem que saber ouvir, melhor, tem que saber escutar cada surfista, o seu pedido, os seus desejos, o seus pontos fortes e fragilidades, e tem que saber observar quem é, e como surfa, quem está a sua frente. Tal como um psicólogo, o shaper tem que procurar ver cada surfista como um todo. Avaliar, diagnosticar e ajudar, neste caso, uma ajuda e uma terapia que se traduz em projectar a prancha certa para cada um de nós.
No fundo, esta é uma profissão para “eternos aprendizes” com aptidão para experiências novas que se combinam de diferentes maneiras, com toda a beleza e, simultaneamente angústia, que caracteriza as realidades que se mantêm incertas, sussurrando-nos a mente com um “tudo é possível”.

E é neste momento que o meu raciocínio bloqueia!
Desisto e deixo-me ficar receando a mudança, na ideia de que esta é uma profissão das mais complexas que existem.
Ser Shaper oscila entre o mágico e o cientifico, o artistico e o técnico, entre o industrial e o artesanal. Tudo se resume a descodificar algo tão “objectivo” e simples como o que conecta cada homem singular a cada onda, também ela única pelos factores que condicionam a sua formação. Quando se descobre este código de medidas e formas, surge uma relação homem/onda que quase faz esquecer o que os une, de tão naturais e harmoniosos se tornam os movimentos de ambos.

Um Shaper que atinge este nível de realização, para mim, com toda a autoridade de quem provavelmente nunca o será, compreende total e profundamente todo este fenómeno a que, simplesmente, chamamos Surf.

Autoria: André Falcão, 2009

segunda-feira, 9 de março de 2009

Uma Tarde em Quiaios


Ao longo da minha vida tenho conhecido algumas pessoas a partir de curiosos acasos. Coincidências que por vezes resultaram em grandes e importantes amizades. Recordo várias situações deste género que provam que o mundo é realmente um local interessante e que o surf o torna ainda mais mágico.
Uma partilha de wax com uma pessoa desconhecida num parque de estacionamento, deriva numa amizade quando nos apercebemos que um amigo comum nos esperava a ambos no outside. O surfar com alguém que, pela sua postura descontraída e informal, não imaginaria, uns meses depois, encontrar como Professor Universitário numa das mais conservadoras e formais instituições de ensino superior por onde passei. Muitas têm sido as situações curiosas que, pela sua improbabilidade, criam empatia e me aproximam destas pessoas sempre com um denominador comum, o surf.
Uma dessas fantásticas coincidências aconteceu há já algum tempo e, apesar de não ter resultado numa amizade, foi de tal forma irreal que a recordo vivamente.
Estávamos de regresso, o fim-de-semana prolongado estava já no seu epílogo e precisava de fazer uma pausa na condução. Naturalmente o trânsito nestas alturas complica-se, sobretudo para quem prefere a paisagem das estradas nacionais, à monotonia das auto-estradas. Era um dos últimos fins-de-semana amenos do ano e havia que aproveitar, antes que as noites frias de Dezembro e Janeiro transformassem a pequena carrinha num verdadeiro frigorífico para quem dorme lá dentro, mesmo estando bem acompanhado.
O destino escolhido para este fim de semana de “vá para fora cá dentro” tinha sido a Cidade Invicta, com paragem na ida pela Figueira da Foz para a respectiva dormida e, de manhã, visita de reconhecimento com uma eventual surfada pelas praias de Quiaios. Estas eram praias ainda desconhecidas para nós mas que estavam há já algum tempo na lista de destinos obrigatórios a visitar na nossa costa.
Como a ondulação se previa fraca e tínhamos tempo, este era o momento ideal para lá ir. Mas teria que ser de manhã! Afinal o mote para esta visita tinha sido dado tempos antes, após a leitura de uma crónica intitulada “Uma Manhã em Quiaios” que me tinha ficado sempre na memória. No entanto, a magia veio a acontecer não de manhã, mas sim à tarde!

Ali estávamos nós finalmente, como estrangeiros no nosso próprio país com o olhar virgem que os caracteriza, a observar a “serra que lhe cai quase a pique” e que nos oferecia “a paisagem de surf mais bonita do centro de Portugal” e as dunas que realmente “lhe dão um sabor de qualquer coisa de selvagem e primordial”. Tudo correspondia exactamente à descrição feita na crónica, menos o mar que correspondia apenas à atmosfera calma do lugar. Seguimos então viagem rumo ao norte para passar o resto do fim-de-semana.

Mas agora no regresso, precisávamos mesmo de encostar! Apesar da pressão para regressar a Lisboa e voltar a governar a vida para as rotinas da semana, apetecia fazer mais surf antes de chegar. Assim, numa decisão relâmpago, decidimos que valia a pena voltar a ver como estava o mar em Quiaios.
Como dias antes, o ambiente continuava calmo, tarde amena, pouco vento, bastante sol. Decidimos arrumar o carro, desta vez mais para o lado norte, talvez aliciados pelas semelhanças com a Côte Sauvage, a norte de Hossegor. Parámos ao lado dos únicos carros que ali estavam, uma carrinha azul e um carro vermelho, se não me falha a memória. Enquanto transpunhamos as dunas comentávamos o quanto seria engraçado que um dos carros fosse do surfista e viajante, autor da bonita crónica sobre aquele exacto local, e que isso significasse que ele estaria ali a surfar.
Ultrapassadas as dunas, avistámos apenas dois surfistas na água e na areia duas senhoras sentadas observando-os atentamente a surfar uma simpática direita que um deles apanhava com bastante facilidade num longboard. Apesar da distância a que nos encontrávamos, dava para perceber que era um pranchão de madeira. Lembrei-me imediatamente que podia ser uma prancha feita na “Loja do Mestre André”.
Decidi vestir o fato, agarrar no meu longboard e juntar-me a eles, entusiasmado com a direita e com a minha dúvida. À medida que remava e me aproximava a dúvida deu lugar à certeza, era mesmo ele! Ali, precisamente ali, em Quiaios, onde, segundo a crónica, ele viveu uma manhã na qual “as ondas eram mesmo boas, tubos e tudo” e na qual “trinta meias testemunhas” de uma colónia de férias podiam provar que o viram fazer surf com mais prazer que nunca.
Condicionado pelos hábitos desconfiados, próprios de quem surfa nos spots perto da capital, aproximei-me do pico timidamente para não ser recebido com olhares de soslaio, afinal, eles surfavam sozinhos o melhor pico das redondezas e eu não passava de um estranho. Sou então surpreendido com uma simpática saudação, ele correspondeu exactamente à imagem que construí dele ao ler as suas crónicas. Falámos sobre aquelas praias e as suas ondas, contei-lhe que estava de passagem, mas confesso que não tive coragem de lhe falar da minha primeira paragem dias antes por ali, e do seu motivo. Já cá fora, no parque de estacionamento, pude apurar que ele não surfava regularmente de longboard, apenas nos dias mais pequenos, sorte a minha que sou fervoroso adepto e praticante desta vertente do surf. Conversámos sobre o pranchão de balsa, lindíssimo e espantosamente leve. Era realmente uma obra prima do americano Andres Kozminski, shaper de pranchas de balsa a viver no Equador há bastantes anos e que serviu de tema a mais um dos seus textos, com o título “Na Loja do Mestre André”. Será Quiaios um lugar mágico?

Naquela tarde não apareceu mais ninguém em Quiaios, portanto, não tínhamos sequer as “meias testemunhas” para provar que aquela tarde de surf existiu. A verdade é que nunca contámos este encontro com ele a ninguém, nem mesmo aos nossos amigos mais próximos, pois as circunstâncias que o rodearam foram demasiado improváveis. Pensariam eles logo: Surfaste só com ele e mais um amigo em Quiaios, logo em Quiaios e de longboard? Pois sim... Naqueles momentos sentimos que toda aquela situação estava invertida, estávamos a viver as crónicas do viajante na sua própria “casa” e era ele que se estava a despedir de nós com um “Boa viagem!”. Apeteceu-me desejar-lhe “Igualmente!”, pois tinha a certeza que apesar de estar na sua terra natal, ele não permaneceria ali por muito tempo.

O pouco que conversámos deu para perceber que se trata de uma pessoa simples que, habituado ao papel nómada do viajante e a ser recebido em locais diferentes e culturalmente distantes das suas origens, aprendeu a receber os de fora na terra e sobretudo nas ondas que o viram crescer, com igual hospitalidade. Pareceu-me alguém carregado de autenticidade, sem qualquer maneirismo de personalidade conhecida, uma verdadeira lição de humildade, simplicidade e, com toda a certeza, tolerância.
Encontrar esta figura incontornável no panorama do “free” surf nacional que, de uma forma simples e pura, cria preciosas reflexões e informações acerca dos lugares, das gentes e das ondas que povoam o nosso mundo, foi para mim uma dessas coincidências improváveis que só o surf proporciona.
Foi com uma “Carta do Norte” escrita no ano de 1997 (salvo erro numa edição comemorativa dos 10 anos de existência da Surf Portugal) que comecei a seguir este autor surfista viajante e desde aí me tenho apercebido da sua contribuição para a manutenção de um espirito, de uma alma ou mesmo de um imaginário do surf associado a aventura, liberdade e busca, que toda uma industria que encontrou aqui um enorme filão teima em fazer desaparecer nas novas gerações de surfistas.
Eu, por mim, anseio pela próxima partida da vida, quero continuar a crescer com algumas das pessoas fantásticas que habitam este mundo.


Autoria: André Falcão, 2009

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Purgatório

Aqui dificilmente alguém chega, hoje,
Para trás ficou muita lama, pedras,
Angústias e horrores,
Mas também, pó e saudades minhas.

Aqui as condições primitivas,
Sugerem rituais de purga,
Há gritos do vento, gritos do mar, gritos meus...
Só não há ninguém a ouvir estes murmúrios,

Aqui estou só eu, as ondas... e os meus sonhos,
Que enormes rebentam bruscamente como trovões,
Arrastando pelo meio areia, pedras e coragem,
Reduzem as ilusões a impetuosa espuma,

São perfeitos, uns atrás dos outros,
Ostentam o que será a curta, mas mais pura felicidade,
Mas estão bem longe desta lamacenta falésia,
E a vida está-se a pôr,

Rochas, inseguranças, ondas exasperadas, sacrifícios, barreiras de espuma, incertezas,
Então suspiro, fixo o horizonte aos meus olhos e faço-me ao mar.
Se não chegar...sonhei com Liberdade!
Autoria: André Falcão, 2009

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Praia das Maçãs

Sozinho escrevo melhor,
Mas não...não te vás embora,
Falemos da poesia deste lugar,
Aqui sentados nestes navios de sedimentos,
Encalhados entre o misterioso mar nocturno,
E a escura falésia...

Lugar mágico este,
Minuciosamente iluminado,
Pela delicada luz das estrelas,
que parecem dar alguma dimensão,
a este espaço isolado, separado do resto dos sítios.

Mas, não...não te vás embora,
A música que a dança das ondas toca nas rochas,
Acariciando-as, puxando-as, batendo-lhes,
Gesticulando como quem brinca com um pai distante, mas protector,
Essa música do mar tocada nesses estáticos instrumentos de pedra,
Que a lua habilmente decora em tons de azul,
Essa música não a quero deixar de ouvir.

Mas...não te vás embora,
Em silêncio, falemos da poesia deste lugar...

Autoria: André Falcão, 2005